quarta-feira, 17 de novembro de 2010

HOINEFF, Nelson. A Nova Televisão: desmassificação e o impasse das grandes redes/ Nelson Honieff - Rio de Janeiro: Comunicação Alternativa: Relume Dumará, 1996.


INTRODUÇÃO
A velha televisão morreu e uma nova acaba de nascer. A primeira permitiu que os poucos canais com que o público se acostumou durante mais de quarenta anos de repente se multiplicassem, transformando-se em dezenas, centenas de opções diferenciadas. A segunda abriu espaço para que todos estes canais pudessem trafegar; reestruturou o mecanismo de produção e criou condições para que a televisão respondesse efetivamente ao comando do espectador, passando a ser programada por ele, em vez de programá-lo. A televisão aberta apontava para a possibilidade de conhecimento prévio da organização da programação das emissoras. Estimulava procedimentos de consumo cultural arcaicos, como a fidelidade às estações ou a inércia frente à seqüência de programação. Em conseqüência, a televisão não mais se organizará por redes, mas pela oferta de programas. E “evolução” talvez não seja o termo mais apropriado. Em nenhum outro momento, o que chamamos de televisão se viu diante de uma revolução tão radical. Mas nasce com uma forte possibilidade de se tornar o veiculo inteligente, ético e abrangente que sempre foi impedido de ser.

OS ÚLTIMOS DIAS DA TV
Em seu primeiro meio século, a televisão experimentou algumas modificações importantes de ordem técnica. Nenhuma de natureza estética. Como veiculo, evoluiu, ainda que lentamente, na definição da imagem e do som- e avançou bastante nos processos de transmissão. Cronologicamente, os fatos que deram origem a essa ruptura podem ser localizados com o avanço da tecnologia dos satélites de comunicação, na sedimentação dos sistemas de TV por assinatura, na criação das redes que alimentam ou virão alimentar estes sistemas, e finalmente, no processo de digitalização das informações que por eles trafegam. Toda essa mudança, no entanto, passa pelo que devemos entender por programação, mas de modo algum se encerra neste conceito. . Um Veiculo poderoso e ainda sim justo com a sociedade; um veiculo que não pode ser programado para entorpecê-la e muito menos para intimidá-la, porque inteligente por constituição e generoso com seu público. Público, aliás, que tem sido desigualmente tolerante com sua forma mais popular de comunicação não-interpessoal, mas que nos próximos anos já vai poder encará-lo com os olhos abertos. Os mesmo olhos que a velha televisão perversamente se esforçava para manter adormecidos.
A PROGRAMAÇÃO DADA NÃO SE OLHA OS DENTES
O Brasil chegou atrasado à comunidade de TV por assinatura. Em poucos lugares do mundo a televisão por broadcast conseguiu se entranhar tão profundamente na cultura da sociedade, ou ser tão consumida pelas diferentes classes sociais, econômicas e intelectuais. O fato é que durante um período muito longo a televisão aberta brasileira estendeu artificialmente sua competência massificante, na contramão da tendência internacional, que apontava para um rápido processo de desmassificação do veiculo em todo mundo, já a partir do inicio dos anos 80. No caso brasileiro, a hegemonia da televisão como um veicula de acesso limitado, é realçada pela extremada hegemonia empresarial no setor. A televisão brasileira falho ao refletir sobre si mesma simplesmente porque jamais acreditou que fosse necessário fazer tal coisa. A televisão segmentada, que nasce com os novos mecanismos de distribuição de sinais, volta-se para um público-alvo mais definido e uma temática mais definido e uma temática mais especifica: esporte, questões religiosa, filmes, noticias, para ficar apenas no terreno do óbvio. A possibilidade da segmentação induz a televisão a evoluir, no mundo inteiro, do estagio da massificação para a desmassificação. Essa máquina não está ainda por nascer. Ela já existe, não pode mais ser evitada e vai aos poucos ocupando o seu espaço, substituindo o papel antes desempenhado pela televisão e, mais importante do que tudo, a idéia que fazemos dela. É um dos veículos mais poderosos já criados e com todas as chances de servir ao homem em vez de servilizá-lo.
O MITO DOS QUINHENTOS CANAIS
No Brasil, o cardápio televisivo da população vem sendo tradicionalmente ditado pelas grandes redes sem a participação da sociedade – mesmo porque, a rigor, não há razão para que entidades estranhas ao organismo que produz ou veicula a programação interfiram sobre ela, a não ser indiretamente, aceitando-a ou não. As novas tecnologias de distribuição de sinais colocaram por terra a teoria da escassez do espaço eletromagnético. Foi sem duvida um bom inicio. Por meios físicos, por satélites ou por MMDS (Multipoint Multichannel Distribution System), as quantidades de sinais passivem de trafegarem a serem recebidos dentro de uma determinada região tornou-se virtualmente infinita. A privatização da televisão em quase toda a Europa é um fenômeno localizado nos anos 80 e transcende a simples mudança da propriedade dos canais. A forma de distribuir os sinais é um agente da programação, que por sua vez a base sobre a qual se assenta o pensamento critico sobre o veículo. A televisão paga oferecer um divisor de águas em toda a idéia de programação, o que resulta numa das mais fortes armas para a revolução operada no veiculo. Leblanc sustenta a idéia de que o telespectador não é um só, mas ele é acompanhado de seus múltiplos. Para ele, pode-se geralmente levar em conta a existência ao múltiplo a três níveis diferentes. Primeiro nível leva em conta a diversidade de públicos visados em ternos de grupos socioeconômicos, sexuais, etários e culturais. Segundo nível pretende conhecer os gostos e preferências dos telespectadores individuais em matéria de programas. E o terceiro nível concerne á diversidade de posturas individuais construídas pelos diferentes gêneros e as diferenças de atividades interpretativas dos públicos reais. As relações entre a televisão e sua audiência começam a se alterar fundamentalmente num ambiente de TV por assinatura. A lenta mudança das relações entre as redes e os anunciantes, em função do crescimento da TV por assinatura, alem de uma crescente rivalidade entre produtores de audiência tem tido um significativo impacto sobre a definição industrial da audiência/mercadoria.
LINGUAGEM E SEGMENTAÇÃO
Ao longo de tanto anos, a televisão por algum motivo tem se eximido de buscar o seu próprio especifico, de criar a sua linguagem, em discordância com todas as outras formas de expressão e muitos especialmente com a sua própria força de penetração. A televisão de um modo geral, nem se quer conseguiu definir em meio século o que os fabricantes de laptops chamam de “comfortable environment”, uma maneira confortável de ser consumida, conseqüentemente adequada de ser percebida. A televisão falhou redondamente no compromisso de se fazer respeitar, de se fazer encarar como forma maior de veiculação do pensamento – e só existe uma razão plausível para isso: ao contrário de literalmente todas as outras formas de expressão, incluindo-se ai até o circo, a televisão, ela mesma, nunca se levou a sério. O que uma televisão segmentada vai fazer ao nível de linguagem é então defini-la em ternos dessa segmentação. Uma sucessão de programas tendo comum uma cara temática. É claro que não se pode atribuir a uma rede independente o monopólio da produção local, ou melhor, dizendo, dizendo de expressão de uma cultura regional. A carência do telespectador brasileiro pela programação regional é bem maior do que se possa imaginar.
EXISTE VIDA INTELIGENTE NA TELEVISÃO?
A existência de vida inteligente na televisão continua sendo uma possibilidade a desafiar os estudiosos. Se a televisão não é o mesmo muito diferente de uma geladeira, se ela é intrinsecamente lixo, ou se deveria ser um objeto sério de estudos nas universidades é uma questão tão antiga e deslocada do ponto real da discussão que a rigor ninguém deveria se importar com isso. A televisão tem a possibilidade de se transformar num veiculo que estimule essas opções e o pensamento que está por trás dela, através de pelo menos dois caminhos, concomitantes e complementares. Assim é a televisão, com a possível que sua janela não esta no mundo, mas abre-se para ele. A televisão está sob domínio total do telespectador e é chantageada por ele a cada instante: ele, que está no controle, pode a cada segundo mudar de canal, ir mais rápido, reduzir o volume, distraí, olhar para a tela com superioridade, desdém, e, num ato supremo, desligar o aparelho. . Ao promover um processo de desmassificação, a televisão por assinatura reduz em muito a possibilidade do esmagamento cultural que compõe a ideologia dos programas de auditório que tão fortemente definem a televisão genérica.
OS GIGANTES ADORMECIDOS
Em 1993, a América Latina contabilizava 6,4 milhões de assinantes nos diversos sistemas. Um ano depois esse número crescia para oito milhões, um aumento de 26%. Em 1995, os assinantes já eram 10 milhões, e no ano de 2000 serão 18 milhões. Na passagem para 1996, os assinantes brasileiros de TV já se aproximavam do 1,5 milhões. O processo de criação de redes brasileiras tornou-se mais dinâmica a partir do final de 1995, com a necessidade de formação, tanto pela TVA quanto pela GLOBOSAT, de canais de noticia seguindo o modelo da CNN, alem dos planos para formação de outras redes segmentadas, voltadas para a cultura e o púbico infantil, entre outras. . No inicio do segundo semestre de 1995, o fenômeno das grandes compras e associações de megaempresas de comunicação lançou novas tintas sobe o sistema de propriedade dos veículos e em especial das redes de TV por assinatura. Neste quadro, não há como evitar o confronto com a ideologia da democratização do pensamento e do acesso que está na raiz da própria idéia de TV por assinatura.
DO TELESPECTADOR PROGRAMADO À TELEVISÃO PROGRAMÁVEL
A idéia de interatividade tem sido um objeto de criticas, ironia e desprezo, que teriam um mínimo de fundamentos se a capacidade interativa da televisão se resumisse simplesmente à possibilidade de fazer o telespectador participar diretamente de game-shows ou fazer compras através do seu terminal. Ver a interatividade dessa forma, no entanto, pode ser comparado a ver o cinema apenas como um veiculo capaz de reproduzir os movimentos da saída dos operários de uma fábrica ou da chegada de um trem na estação. . O gerenciamento do que se vai ver, ou da forma como se vai utilizar o aparelho ou equipamento necessariamente terá que criar com o telespectador. O item entretenimento, no entanto, aponta sutilmente para a tendência mais importante da visão a partir da digitalização. O crescimento o pay-per-view e a rápida disseminação do vídeo-on-demand testemunham a irreversibilidade da televisão como parte de uma ambiente interativo. No Brasil, o pay-per-view foi lançado embrionariamente em outubro de 1995, em Curitiba. Aos assinantes da TVA foi oferecida a possibilidade de acompanhar o Campeonato brasileiro de Futebol da segunda divisão, pagando 7 reais por cada evento.
TELEVISÃO ANO ZERO
No momento em que a televisão começa a lançar mão das possibilidades abertas pela convergência de informação, esgota-se a possibilidade de um veiculo que programe o tempo do espectador. Esgota-se também a hegemonia dos veiculadores sobre a programação. O fato é que num mundo digital velhos procedimentos tornam-se anacrônicos. Até certo momento, pode ser mais fácil botar uma carta na caixa de correio do que programar um fax. Para evitar que virtualmente todas as estações e receptores de TV e tornassem obsoletos da noite para o dia, os americanos sustentam a posição de uma transição gradual, através de um sistema que seja capaz de transmitir simultaneamente sinais convencionais e de alta definição. A TV de alta definição transformou-se num singular exemplo da irremediável corrida pela digitalização. Seu renascimento de compressão de sinais e com um de seus mais importantes corolários: a virtual transformação da televisão num veiculo programável. Para a indústria, a TV de alta definição é uma espécie de cinema portátil, o ambiente definitivo para o consumo de filmes on demand. . Mas o que está em questão já não é a quantidade de canais distribuídos, e sim a redefinição do que seja, afinal, um canal de televisão. Se o espectador for confrontado com essa idéia tanto tempo não se tenha dado conta da irrealidade deste conceito. Não é fácil sustentar que alguém deve pagar pelo que antes recebia de graça, mas não se pode esquecer que a televisão jamais foi rigorosamente gratuita. Esse “grande público” é algo que tecnicamente não faz sentido nem dentro das agências de publicidade, porque significa uma massa de consumidores de características diversas – e freqüentemente antagônicas. A televisão/veículo acaba de ser reinventada. Sua primeira invenção há meio século, até hoje não se fez acompanhar pelo nascimento de uma linguagem. É mais do que provável, no entanto, que dentro de cem anos o mundo possa estar comemorando o centenário de uma forma de expressão tão completa, rica e inteligente como nunca antes o ser humano ouviu falar.

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